Não serei aqui mais um a falar do que anda acontecendo com nosso país, criar teorias ou ditar pontos de vista. Nosso negócio é música, certo? E, ao contrário do que muita (muita!) gente pensa, ela não serve só para promover baladas ou alegrar o ambiente. Música é arte, e arte é nada mais que uma das formas humanas de expressão. Sendo assim, a música serve sim para animar baladas, mas também serve para ficar triste, relaxado, estressado, falar de coisas bonitas ou o contrário… Dizer “sim” e dizer “não”.

A canção de protesto sempre esteve presente na história do Brasil, mas teve seu auge durante os “anos de chumbo” da ditadura militar (1964-85), sobretudo após a publicação do AI-5 (1968-78), um golpe certeiro na liberdade de expressão no país. Daí surgiu uma infinidade de canções de denúncia e insatisfação, que exigiam bastante dos compositores, dada a necessidade de “driblar” os censores e passar a mensagem adiante de forma disfarçada ou indireta. Há quem diga que as melhores canções brasileiras são dessa época. A dificuldade e a limitação têm seu lado positivo, então?

Apesar da “ditadura” do politicamente correto, aparentemente nunca se foi tão livre para se falar através da música, mas onde estão as canções de protesto ou de crítica? Muitos músicos encontraram sucesso através de contratos gordos com gravadoras e se renderam aos lugares-comuns e sentimentalismos que fazem muita gente ter ideias limitadas sobre o que é e para que serve a música. Mas e os artistas independentes? Por que seguem o mesmo modelo? Por que a regra ainda é escrever músicas de acasalamento ou de bebedeiras? Estamos, artistas e público, ficando mais e mais condicionados a agir e pensar como gado?

Pensando nisso, comecei a montar uma playlist de músicas de indignação que soem atuais e de artistas apenas brasileiros. Por enquanto não há muitas, porque é um trabalho lento de se lembrar das canções certas, mas a grande sacada é: vamos montar essa playlist juntos. É uma playlist colaborativa no Spotify. As regras são simples: como disse, deve conter apenas artistas brasileiros e deve soar atual, mesmo que seja antiga. As músicas devem expressar indignação com algo da nossa sociedade. Outra regra crucial: não repita artistas. Assim teremos mais chances de conhecer mais músicos, de forma mais objetiva. Caso surjam repetições, manterei a música inserida primeiro ou a que tenha mais a ver com a proposta. Inclusive, fique à vontade para sugerir trocas.

Que tal a ideia? Penso que precisamos de uma playlist menos “fofinha” para lembrar que estamos aqui por algum motivo que não apenas crescer e se reproduzir. Temos algo a construir, e esses caras já descobriram isso. Ouça no volume máximo:

Vale aqui acrescentar mais uma música que, infelizmente, não está no Spotify: “Chega”, de Gabriel o Pensador. Essa com certeza traduz o que muita gente pensa sobre nosso país:

  • Heitor Grima

    Ótimo texto! Bom ter textos mais longos que discutam uma questão musical mais a fundo… Sugestão Coxinha: Ultraje a Rigor – Filha da Puta, Sugestão Petralha: Paralamas – Luis Inácio (300 picaretas) (neste caso seria uma troca no lugar de Selvagem), Sugestão vamo juntar coxinhas e petralhas e tomar uma cerveja: Bezerra da Silva – Reunião de Bacana. Abraço!

    • Kkkk, boa! Até pensei em Luis Inácio, mas ela é muito datada. Hoje soaria ingênua. Abração e continue com a gente!

    • Kkkk, boa! Até pensei em Luis Inácio, mas ela é muito datada. Hoje soaria ingênua. Abração e continue com a gente!

  • Marcela

    Quem usa o termo “‘ditadura’ do politicamente correto” é, no mínimo, mal informado ou conivente com algum tipo de corrupção e, as vezes, crimes. No mais o texto soa interessante, mas bem pouco aprofundado: Tem muito, MUITO mesmo, artista por ai criando música e diversas outras obras em repúdio a baderna que encontra-se o país. Ao invés de parecer diferentão, seria legal buscar esses artistas ao invés de reclamar que eles não existem só porque não os conhece.
    Bandas sérias, como Titãs calaram gritos misóginos (porque xingar uma presidente de vagabunda e puta não é protesto, é politicamente incorreto, machismo e misoginia) na abertura do show do Rollings Stones. Já bandas como Ultraje, não só apoiaram xingamentos como os fizeram também, e nesse caso, não adianta nada protestar sendo um idiota.
    O tema da matéria é ótimo, mas melhore no que chamam de “ditadura” e informem-se mais. O país tá efervescendo de artistas (fora da mídia) é claro, protestando e lutando por liberdade e punição para TODOS.

    • Oi, Marcela. Obrigado pelo comentário. Caso não tenha notado, o termo “ditadura” está entre aspas, e isso, em interpretação de texto, quer dizer muito. Sugiro que se informe um pouco mais antes de mostrar todas as armas assim, sem necessidade. Aqui não é lugar para teses, por isso, obviamente, não quis me aprofundar, e nem deveria. E sim, eu sei muito bem que o país está repleto de artistas independentes fazendo um trabalho consistente… Eu sou um deles, há uma música minha na playlist, que por sinal é colaborativa: as músicas que eu adicionei são só as 11 primeiras e, mesmo assim, apenas para incentivar outras pessoas a sugerir mais, com as que eu lembrei enquanto escrevia o texto. As demais foram pedidas/adicionadas por leitores. Quem quiser adicionar mais músicas, simplesmente pode fazê-lo, sem precisar me pedir. Por que você mesma não enriquece a playlist com seu vasto conhecimento sobre músicos independentes? Abraço, e sugiro se acalmar um pouco antes de sugerir que alguém, que você nem faz ideia de quem seja, é corrupto/criminoso. Ao invés de tentar “parecer diferentona”, usando seus próprios termos, seria legal ao menos fingir ser sensata/tolerante. Existem formas mais elegantes de discordar, acredite… Não pareça mais uma ditadora da internet. 😉

  • Marcela

    Caro, autor. O comentário não foi agressivo e nem deveria ser ofensivo. Aspas podem dizer muito de fato, inclusive, segundo a interpretação de texto, permitem classificar algo como “irônico”.
    Sobre ser diferentona ou parecer ditadora da internet, mais uma vez a interpretação de texto tá aí pra ajudar quem quer compreender e aceita receber críticas. E sobre a tolerância e elegância, exercite-as antes de responder um comentário que feriu seu ego.
    Não fui informada que o Troca o Disco não era lugar para teses, sugiro que os administradores do site aprovem textos com teses, aprofundamentos e argumentos (assim como fazem nos podcasts). É bastante enriquecedor. E mais uma sugestão: fechem os comentários nos casos em que o autor estiver disposto apenas a ouvir elogios.
    Espero que seu trabalho como artista seja melhor, e menos arrogante, do que como autor de textos.

    • Olá, Marcela. Como eu disse aos outros membros da equipe, eu nem me manifestaria e nem me incomodaria se você simplesmente dissesse seu ponto de vista, contrário ao meu, com elegância e respeito. Mas, a partir do momento em que alguém insinua publicamente que eu sou corrupto ou criminoso, como você fez, de forma totalmente ilógica, eu me sinto no direito de me defender, e o faço, quer você se sinta bem ou não com isso. Pois bem: O “diferentona” foi usado apenas porque você o usou primeiro, se é que se lembra. Eu gosto de devolver absurdos que me são lançados sem fundamento.

      Já que é preciso que alguém lhe diga que este é um site sobre música e entretenimento, e não um banco de teses, não se preocupe: em http://www.teses.usp.br/ você tem acesso a inúmeros e extensos trabalhos acadêmicos da USP, provavelmente muitos sobre música. O Scielo ( http://www.scielo.br/ ) também é uma ótima fonte de artigos científicos.

      Meu ego não foi ferido, porque eu nunca tive a ilusão de que meus textos seriam unanimidade e acho que seria muito tedioso se todos sempre concordassem comigo. Mas, como eu disse, não é porque eu achei absurda a sua agressividade que eu também parti para a ofensa. Apesar da sua atitude intolerante, típica de ditadores, eu ainda prefiro não dizer que você seria corrupta ou criminosa. Mal-informada, talvez, mas eu nem disse isso… Nesse caso, já que falou em arrogância, sinto lhe dizer, mas a sua aparentemente já lhe cegou a ponto de enxergar nos outros os seus próprios problemas.

      Sugiro que releia seu comentário anterior e pense se realmente não houve desrespeito, agressividade e arrogância da sua parte. Meu trabalho como artista também nunca será unânime, mas eu sei que é sincero e sensato. Não estou aqui a passeio. Sei muito bem o que estou fazendo em meu trabalho, logo, não é qualquer opinião contrária que seria capaz de “ferir meu ego”. Se chamar isso de arrogância a deixa feliz, fique à vontade. Eu realmente não me importo. Reflita mais e atire menos… Conselho de amigo, vai lhe fazer bem. Você vive em sociedade: atirar pedras aleatoriamente não lhe será saudável.

      Ah, sim… A playlist ainda carece da sua valiosa contribuição com bandas atuais e independentes, que escrevem letras de protesto.

      Grande abraço, e aguardo ansiosamente pelas novas músicas da playlist.

  • Marcela

    Caro, autor. Respeito, elegância, interpretação de textos, significação das palavras e maturidade não parecem ser o seu forte.

    “Te chamei de ‘diferentona’ porque você me chamou primeiro” – Você precisa de uma bola, um doce ou algo assim?

    A saber: Teses são muito mais do que artigos ou produções acadêmicas. São qualquer opinião (até mesmo suposição) emitida com base em questionamentos e reflexão. Qualquer um que se proponha a criar teses, ainda que pouco letrado ou mesmo analfabeto, pode fazê-lo e o Troca o Disco é espaço para isso, pelo menos é a imagem que passa em alguns textos e também nos podcasts.

    De minha parte, reforço mais uma vez, não houve agressividade, apenas crítica. “Ditadura” do politicamente correto é o que (acredito eu) salva milhares de vida de negros, índios, homossexuais, transgêneros, mulheres, deficientes, animais e diversas outros seres que julgo estarem em desvantagem na convivência em sociedade.

    Destaquei que quem julga o politicamente correto como ditadura poderia sim ser chegado a corrupção e crimes. Se não era o seu caso, não deferia ter se ofendido tanto. Apontei a “ofensa” a quem acredita no “vitimismo” amparado pela proteção dos valores de humanidade. Se você não é assim, não deveria ter-se sentido ofendido.

    A playlist da sua matéria, assim como qualquer produção que conte com sua autoria não me interessa. Continuarei acompanhando o podcast e, quem sabe, numa próxima apresentação do acustriplo eu tenha oportunidade de conversar com alguns membros da equipe com maior capacidade de compreensão e ego menos frágil.

    Artistas protestam, não só com letras, inclusive, como músico, imaginei que pudesse compreender isso, mas vejo que não há porque esperar qualquer tipo de compreensão de sua parte. Não há cegueira só em quem o questiona e não atiro pedras, essa é a postura de outro tipo de pessoa, bem mais próximo da sua personalidade, a julgar por todo discurso débil.

    Por fim, você não é meu amigo.

    • Não mesmo, mas dei o conselho mesmo assim. Já deu por aqui, né? Continue assim e tenha uma boa vida. 😉

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