Os fãs da cantora Kesha aguardam avidamente pela atitude que a Sony Music declarou que pretende tomar em relação ao produtor Dr. Luke. De acordo com o site The Wrap, a multinacional pretende rescindir o contrato com o selo de Luke, a Kemosabe Records, um ano antes do seu fim.

É importante entender o embate entre Kesha e seu produtor, não apenas para os fãs da cantora ou de música pop, mas para todo admirador de música em geral, que não sabe o que acontece por trás dos palcos, e também para músicos e profissionais do meio, já que o caso traz à tona um tipo de sujeira que é bem comum no mainstream.

Os personagens
Lukasz Sebastian Gottwald, o Dr. Luke, assinou um contrato com Kesha que previa um total de sete álbuns a serem lançados pela Kemosabe Records. Os dois começaram a trabalhar juntos a partir do segundo disco da cantora, Warrior, lançado em 2012, um trabalho composto por ela, Luke e pelo frontman da banda Flaming Lips, Wayne Cole. O disco foi bem aceito, chegou ao sexto lugar na Billboard 200 e conquistou bons lugares nas paradas internacionais, mas os problemas já começaram aí: em 2011, a cantora havia divulgado que o nome do álbum seria Spandex on the Distant Horizon, mas em março de 2012, uma nova declaração dizia que o tema das músicas trariam “mensagem positiva de que todo mundo tem um guerreiro interior.”

O início
O single deste álbum, Die Young, traz a frase “vamos fazer nosso melhor esta noite, porque vamos morrer jovens”, uma citação que chegou em momento infeliz, pois bem na época de seu lançamento houve o caso do tiroteio da escola Sandy Hook, que terminou com 28 mortos, incluindo 20 crianças. Kesha afirmou, pelo Twitter, que tinha sido forçada por Luke a cantar esses versos, mesmo não estando confortável com a expressão “morrer jovem”.

A partir daí, vários indícios começaram a surgir: a cantora entraria em uma clínica de reabilitação para tratar de um transtorno alimentar que, segundo sua mãe, havia sido causado por Luke, que a pressionava para perder peso; começavam a surgir declarações de pessoas próximas aos dois de que o “doutor” controlava todas as suas composições, mexia em todo o seu trabalho, não a deixava criar como queria e tentava “construir” todo um visual para a indústria que ela não queria ostentar. Em 2013, os fãs iniciaram até uma petição para que o contrato entre os dois seja encerrado.

Kesha e Dr. Luke: uma relação de controle e submissão.

O processo e o fim indigno
Em 2014, Kesha abriu um processo contra Luke, alegando que, durante o tempo em que trabalhavam juntos, ele teria “abusado sexual, física, verbal e psicologicamente dela, a ponto de ela quase perder a vida” para “manter total controle” (em bom português, Kesha diz que Luke a drogava e estuprava). No processo, Kesha pedia o total rompimento contratual entre ela e a Kemosabe, cortando qualquer laço com o produtor. O caso tramitou na justiça até que, no último dia 19 de fevereiro, a juíza Shirley Kornreich negou seu pedido de poder trabalhar com outras gravadoras. “Não há nenhum indício de dano irreparável. Ela está tendo oportunidade de gravar”, alegou. Kornreich não viu motivo para o cancelamento do contrato, já que Luke haveria investido 50 milhões de dólares na carreira da cantora. A advogada do produtor, no entanto, alega que Kesha está livre para gravar sem ter Dr. Luke no comando – mas seus novos trabalhos deveriam continuar saindo pela Kemosabe.

A decisão judicial causa revolta (e com razão) dos fãs e de outras artistas como Demi Lovato, Kelly Clarkson, Miley Cyrus, Lorde e Lady Gaga, que se manifestaram em favor de Kesha nas redes sociais.

Kesha e Lady Gaga: apoio em foto postada nas redes sociais

A burocracia
Durante todo o caso, a Sony Music, gravadora que distribui os álbuns da Kemosabe Records, dizia que não poderia interferir na batalha legal, já que o problema era entre o selo e a cantora. Ocorre que, ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, os selos, normalmente, não são propriedade das grandes gravadoras, mas empresas que assinam contratos de parceria/ serviços – como é o caso entre a Sony Music e a Kemosabe Records. A Sony não pode demitir Dr. Luke porque ele não é funcionário da empresa.

O que a multinacional pode fazer, sim, é rescindir o contrato entre ela e o selo, em vez de renová-lo, como estava previsto para ser feito em 2017. Ninguém além dos envolvidos no contrato sabem os termos apresentados no papel, mas supõe-se que, caso a Sony Pictures tome mesmo a decisão que pretende, haverá perda financeira para a multinacional. “O mais provável é que haja uma negociação”, disse uma fonte não identificada da Sony Music ao jornal New York Daily. Falando de Dr. Luke, “uma pessoa foi condenada via Twitter. Nenhum tribunal condenou essa pessoa, de modo que não há base jurídica para finalizar o contrato. Teria que ser um acordo mútuo.”

Manifestações de fãs de Kesha na porta da Sony Music

Fazer o certo
Em um de seus manifestos sobre o caso, Lady Gaga solicitou à Sony Music: “façam o que é certo, e não o que é melhor para os negócios.” Ela está certa. Os lucros de Luke com Kesha foram obtidos em cima de abuso físico e psicológico e, se a justiça não enxergou isso, que o mundo dos negócios o faça. Acontece que esse mundo dos negócios só fala uma língua: a do dinheiro – como fazer para discursar sobre o certo dentro deste idioma?

A resposta é: fazendo barulho. Os fãs de Kesha fazem passeatas na porta da Sony Music, enchem as redes sociais com a hashtag #SonyApoiaoEstupro e solicitam que o rompimento do contrato aconteça – sem uma major como a Sony para distribuí-la, a Kemosabe não teria outra alternativa senão rescindir o contrato com Kesha por incapacidade de cumprir sua parte nele. Para que isso aconteça, precisamos mostrar que uma repercussão tão negativa como essa, se for prolongada, pode danificar sua imagem, causando prejuízos financeiros e de negócios ainda maiores que a continuidade dessa ligação, mesmo que contratual, com uma figura publicamente odiada.

Comentei em outro texto a respeito de uma frase que apareceu na série Vinyl, da HBO: “músicos não são seus amigos: eles são um produto.” Era assim que Dr. Luke enxergava Kesha e, possivelmente, todos os artistas que ele produz. Kesha é, antes de tudo, uma mulher, uma pessoa cuja integridade deve ser respeitada. Se a indústria da música (e do entretenimento em geral) age desse jeito, grite, manifeste-se. Artista não é “produto” e público não é “fonte de renda”.

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