Acabo de terminar Nos Bastidores do Pink Floyd, uma grande biografia sobre uma banda que está em meu top 3 das maiores de todos os tempos, que vez em quando deixo de lado, mas que quando volto a ela, não consigo largar por meses a fio. Comprei este livro há um certo tempo e deixei na estante, para degustá-lo num momento certo. Sim, há momentos e momentos para se ler um livro. Ler é como ter um melhor amigo, companheiro de todas as horas ou confidente durante um certo período. Não há nada mais frustrante que começar a ler para depois desistir no meio do caminho. Deixei este para um momento em que me viesse aquele clic, e o momento finalmente chegou.

Não cabe aqui repetir informações biográficas que encontramos vastamente por aí. O livro nos dá uma noção mais exata da grandiosidade da figura do Syd Barrett. Provavelmente é a personagem mais citada em toda a obra, mesmo em tempos muito distantes da sua breve participação como membro do Pink Floyd. Eu não tinha noção do quanto esse cara influenciou toda a obra do grupo, bem como sua forma de encarar o mundo. Em segundo lugar, suponho que seja Roger Waters o mais citado: as frustrações por perceber que se resolvesse cruzar os braços, simplesmente nada aconteceria e a posterior revolta e atitude azeda que isso implicaria. Obviamente, também me chamou a atenção o fato de David Gilmour passar a sentir esse mesmo peso quando da saída do baixista/letrista/produtor.

Me agradou a obra não cair naquele velho lugar-comum de sexo/drogas. Claro, não há como fugir completamente desses temas (estamos falando de uma banda de rock, das grandes), mas sinceramente não tenho muito interesse, porque basicamente todas as biografias acabam ficando muito parecidas nesse aspecto. O Pink Floyd tem um diferencial: era formado por pessoas de carne e osso, que paradoxalmente curtiam mais fazer coisas comuns que qualquer ser humano comum faz, como jogar gamão, estar com a família, não fazer nada, etc. Espera-se de uma banda com um som tão viajante que sejam os mais loucões de todos, mas imagino que o Led Zeppelin esteja a anos-luz de (des)vantagem nesse quesito.

Um fator importante em se ler um livro como este no momento atual é de que o livro em si não basta. Toda biografia de banda traz inúmeras referências a discos, artistas, vídeos e contextos, e a internet está aqui para nos mostrar tudo, rapidamente. Quer ver o tal vídeo Syd’s First Trip, citado como caseiro e raro? É encontrável em segundos. Quer ver como era a namorada do Syd que aparece na capa de seu primeiro disco solo? Fácil! Mais ainda: quer ver como cada pessoa do livro está, após o passar dos anos? Sem problema. Isso torna a leitura mais lenta, mas mais rica. É uma ótima experiência. Não dá mais para ler sem papel, caneta ou um computador por perto.

Mas nem tudo são flores. Esta é a primeira edição do livro no Brasil e a editora Generale (na verdade, parece ser um selo da Editora Évora) cometeu muitos deslizes, que fazem a obra merecer várias correções urgentes para a segunda. A primeira coisa que me chamou a atenção, obviamente foi a capa. O título original é Pigs Might Fly: The Inside Story of Pink Floyd, com o porco Algie flutuando sobre a Battersea Power Station, para o que seria a capa do álbum Animals (1977). A capa brasileira parece ter sido produzida por alguém que não conhece o Pink Floyd, ou apenas superficialmente. Reproduziu-se as chaminés e o porco, mas com um fundo sem lógica remetendo-se à capa do The Wall (1979). Me pareceu que a Listo Comunicação (citada nos créditos como a produtora da capa) resolveu copiar a capa original e, de repente, resolveu fazer um mix de várias capas do Floyd, de forma preguiçosa e apressada. Isso se agrava pelo fato de ter sido usada a porca fonte Floydian no nome da banda, em destaque. Esta é uma fonte que tenta imitar a original do The Wall, mas sendo mais uma feia caricatura. Mais uma prova da preguiça e pressa: se buscarmos fonte Pink Floyd no Google, a primeira opção a aparecer será esta horrível fonte. Tosco e amador, no mínimo.

Nas orelhas do livro vemos vários depoimentos de anônimos, donos de bares, escritores de livros que nada têm a ver com o tema, músicos amadores, o que dá a impressão de que o responsável por essa parte estava mais preocupado em contar vantagem por estar na equipe da primeira edição da biografia do Pink Floyd aos amigos que encontrou numa noite qualquer. Nada contra as pessoas que aparecem, mas isso até mesmo eu poderia fazer… Ou algum amigo meu, fã da banda… Ou você, seja lá quem seja. Outro ponto negativo: muitos, mas muitos erros de digitação, incluindo o título original, nos dados de catalogação: History of Pink Floyd, ao invés de Story. Ao meu ver, o revisor também não estava muito interessado em qualidade e leu o livro com bastante desdém. Enfim, espero sinceramente que a segunda edição seja cuidadosa (eu poderia dizer mais cuidadosa, mas não detectei um cuidado mínimo para isso) com este que é uma importante obra num país em que poucas biografias estrangeiras chegam a ser traduzidas.

A obra original foi publicada em 2007, logo não aborda a morte do tecladista Richard Wright e o álbum póstumo lançado recentemente, The Endless River. Faz várias referências e deixa o leitor com muita vontade de conferir a biografia escrita pelo baterista Nick Mason, ao abordar alguns poucos fatos de seus bastidores. Apesar de tantos equívocos grotescos e inaceitáveis por parte da editora, é um livro indispensável a quem deseja se aprofundar um pouco no fantástico universo floydiano, incluindo trabalhos solo de cada um dos integrantes. Espero que, na segunda edição, os porcos possam voar mais alto, como de costume. Quem sabe numa editora mais séria…

Nos Bastidores do Pink Floyd
Autor: Mark Blake
Editora: Generale (Évora)
Lançamento: 2012
Nº de páginas: 454 + 16 (fotos)

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