Robert Plant, o vocalista do Led Zeppelin, eleito pelos ouvintes da rádio inglesa Planet Rock a maior voz do rock. Autointitulado Deus Dourado, passou a ser alvo dos holofotes a partir do dia em que conheceu um sujeito estranho e sinistro chamado Jimmy Page. Plant sempre foi o tipo de cara que despertava amor e ódio. Desde os tempos de escola tinha fama de arrogante e muito seguro de si. Era um adolescente quando os Beatles e os Stones já eram famosos. Conheceu o blues americano e nunca mais largou.

Robert Plant: Uma Vida, de Paul Rees é uma boa e rara obra que ultrapassa os limites óbvios das inúmeras biografias do Led Zeppelin. Sempre que se fala desta banda parte-se do ângulo do Page, com sua luta por um lugar ao sol com os destroços dos Yardbirds. Desta vez o filme é multicâmera e escolhemos o ângulo do garoto de Black Country, local que nunca abandonou e se tornou seu refúgio. Aqui temos uma boa narração sobre os acontecimentos pré-page: a curiosidade pela música, os conflitos em casa e apenas uma certeza: a música seria sua vida!

Muita gente não se conforma com as constantes esquivas de Plant quando o assunto é um retorno do Led (Jimmy Page é o mais inconformado, sem dúvida). Antes eu achava que ele apenas era um cantor experiente que tinha noção dos seus limites, devido à ação do tempo e o modo agressivo com o qual sempre tratou suas cordas vocais. Agora ficou bem claro que o buraco é bem mais embaixo… E sombrio!

Coincidência ou não, as grandes tragédias de sua vida aconteceram durante seus tempos de deus dourado: acidentes, problemas mil e as mortes de seu filho Karac e seu amigo John Bonham criaram uma atmosfera pesada em torno da banda, o que criou a lenda urbana de que o Led carregava consigo uma espécie de maldição. Jimmy Page, claro, envolvido com ocultismo e se afundando nas drogas só adicionava mais lenha à fogueira. O gigante, tão minuciosamente construído estava descontrolado e a mil por hora. Óbvio que mais cedo ou mais tarde algo terrível e barulhento aconteceria.

Passada essa parte presente em qualquer biografia do Led, o livro segue adiante no lento processo de renascimento de Plant, ao longo de três décadas. Plant havia se acostumado a “receber” ordens do chefe, Page, e agora deveria ser o maquinista de seu próprio trem. Foi se descobrindo como indivíduo após seu auge, o que lhe pareceu assustador. Buscou se adequar às novidades de sua época até chegar ao patamar atual, de grande gênio da criação musical, sempre cercado dos melhores parceiros. Se seus primeiros trabalhos são datadíssimos e não convencem muito, os mais recentes, a partir de Mighty Rearranger (2005) parecem de extremo bom gosto e talento.

Apesar de sempre evitar, a sombra do Led Zeppelin o persegue até hoje. São tempos dolorosos que o castigam com culpa e dor dia após dia. Para a tristeza do seu maior amigo e inimigo, Jimmy Page, que encara a banda como seu “bebê”, tal qual Roger Waters com o Pink Floyd. O livro nos possibilita conhecer aspectos mais íntimos da lenda do rock, que não escondia, quando mais jovem, sua intenção de se tornar o “Elvis Loiro”. Sua relação com as mulheres (milhões!) e seus projetos pouco conhecidos, como a banda de rockabilly The Honeydrippers, cujo EP está até mesmo na Spotify, camuflado, além de sua parceira da nova Band of Joy, Patty Griffin, cujo disco American Kid também conta com Plant nos vocais. Aliás, provavelmente a única mulher de quem Plant se aproximou e não se relacionou foi a bela Alison Krauss, que foi iluminada com um dos melhores discos da década passada, Raising Sand, em parceria com Robert.

Este é um livro muito bem escrito, de fácil e rápida leitura, como um bom texto de um jornalista deve ser. Curiosamente, não foi muito divulgado aqui no Brasil. O encontrei por acaso e comprei. Valeu a pena. Fundamental para os que desejam conhecer melhor tudo à volta do Led Zeppelin, e não se prende ao “mais do mesmo” tão óbvio em qualquer história sobre a banda. De quebra, ainda ganhamos bastante bagagem musical para ocupar nossos ouvidos e mentes por um bom tempo.

Robert Plant: Uma Vida
Autor: Paul Rees
Editora: Leya
Edição: 1ª (2014)
Nº de páginas: 303 + 16 (fotos)

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