As gravadoras ainda estão batendo cabeça para descobrir formas cada vez mais eficientes de lucrar como antigamente com o atual comportamento de ouvir música por meios digitais/ virtuais. Uma delas é lançar singles em serviços de streaming, atendendo ao gosto da maioria dos ouvintes atuais, que não se importam em ouvir álbuns inteiros e vão atrás apenas de hits isolados dos artistas. Acontece que as tais “paradas” ainda são consideradas importantes para os executivos da indústria e elas ainda são medidas com base no conceito de álbuns (lembra da conta da RIAA para medir a “venda de álbuns” por meio de execução virtual?). Como fazer, então, para que esses singles, que não pertencem a nenhum álbum, emplaque nas TOP Listas?

O selo Epic, que pertence à Sony Music, parece ter encontrado uma solução: recentemente, ele lançou no Spotify uma “coletânea” chamada Epic AF, que reúne hits de vários artistas como Drake, Jay Z, Nicki Minaj, Flo Rida e outros – faixas ou versões que não saíram em nenhum álbum desses artistas, mas que foram lançadas isoladamente. Perceba que, tecnicamente falando, a atração não se apresenta como uma playlist criada pelo selo em seu perfil no Spotify, mas como um álbum mesmo.

Como a coletânea não foi lançada em formato físico (CD, vinil, etc.), nenhuma unidade da mesma foi vendida, mas, fazendo uso da tal matemática da RIAA, a Epic AF se mantém há sete semanas entre os 40 álbuns mais ouvidos na Billboard 200, sendo que, nas quatro primeiras, ela se manteve entre as 10 primeiras posições. Vale lembrar que a Billboard não está contando (pelo menos, até agora) os números de cada faixa da coletânea vendida separadamente através de lojas de música digital como iTunes e Amazon, apenas a execução via streaming. O primeiro lugar do ranking é atualmente ocupado pelo DJ Khaled e seu álbum Major Key, cujas primeiras duas faixas, I Got the Keys e For Free, faziam parte da Epic AF antes do lançamento da bolacha.

Se parar para pensar de forma mais analítica, a ideia não é de ruim, uma vez que coletâneas “caça-níqueis”, recheadas de hits do momento, existem desde a época do vinil – quem, com mais de 30 anos, nunca teve um disco ou CD chamado “summer hits qualquer coisa” que pode ter comprado na loja por causa daquela única música que ouviu no rádio ou adquiriu junto com aquela revista que trouxe o CD encartado ou ganhou de brinde em qualquer ocasião? Afinal, para as gravadoras, ter suas músicas e álbuns nas paradas “valoriza” os passes dos artistas, fazendo com que eles ganhem ainda mais dinheiro e, para fins técnicos e estatísticos, criar uma coletânea como essa, mesmo que exclusivamente virtual, tem mais peso ao ser contabilizado e visualizado na Billboard do que uma playlist. Para o público em geral, no entanto, não faz diferença como a música é catalogada no serviço de streaming, desde que ela seja facilmente “encontrável” pela ferramenta de busca do Spotify para que seja adicionada sem sua lista particular a fim de ouvi-la pelo aplicativo no celular.

A iniciativa da Epic foi criada exclusivamente para emplacar os singles de seus artistas, mas se a moda pega e for usada para o bem, algumas coletâneas como essa podem tornar-se verdadeiras curadorias de sons novos e antigos, que podem trazer novos artistas ou mesmo resgatar bandas e cantores/ cantoras das antigas de volta às luzes da ribalta. Sim, estou sendo ingênuo em pensar no uso deste recurso “para o bem”, mas até mesmo boas ações como essa hipótese podem gerar lucro e, já que o custo de um lançamento virtual como esse é praticamente zero, isso pode ser algo que as gravadoras podem considerar…

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