No dia 18 de agosto de 1986, as lojas de discos recebiam um novo álbum, recém-saído do forno. Slippery When Wet venderia, em pouquíssimo tempo, cerca de 28 milhões de cópias, transformando o Bon Jovi de uma banda de New Jersey com dois álbuns lançados e moderado reconhecimento para um dos maiores nomes do “rock farofa” de todos os tempos.

A fase do hard rock dos anos 80, cheia de maquiagem, glitter, cabelos laqueados e riffs e refrões “chiclete”, é repleta de sucessos comerciais, criados com fórmulas musicais e de produção que pegam todo mundo de jeito, fazendo com que mesmo aquelas pessoas que não curtem esse tipo de som acabem decorando as letras e melodias e, quando menos perceberem, estão cantarolando sozinhas. O terceiro disco do Bon Jovi é uma das pedras filosofais desse cenário.

“Tudo sobre esse segundo álbum estava errado”, relembrou Jon Bon Jovi em uma entrevista na época do lançamento de Slippery… O cantor falava sobre o disco 7800° Fahrenheit, de 1985, que todos acreditavam que seria o trabalho da vida do grupo, aquele que os lançaria ao panteão dos grandes nomes do rock – um verdadeiro tiro pela culatra, que deixou os integrantes insatisfeitos com o resultado. “Meus heróis são pessoas como Southside Johnny e Bruce Springsteen”, conta Jon. “Suas canções contam histórias valiosas. Esses caras são reais. Posso me relacionar com eles. As pessoas parecem pensar que eu sou um menino bonito que apenas teve sorte. Eu varri andares de estúdios, fiz todo tipo de coisa.”

Mesmo com dois discos nas prateleiras, a banda ainda não havia visto a cor do dinheiro, forçando seus integrantes a continuarem trabalhando em empregos paralelos, não podendo dedicar-se integralmente à música. Enquanto Jon entregava pizzas, seu parceiro de composição, o guitarrista Richie Sambora, trabalhava em um bar de rock da região durante toda a noite. Eles se encontravam no porão da casa de Richie todas as tardes, enquanto seus pais trabalhavam fora, para escreverem as novas composições e procuravam incorporar esse elemento de trovadorismo que fizessem as pessoas se identificarem e reconhecerem nas letras, aliadas a uma melodia com apelo bem pop. “Gostei do que Bryan Adams tinha feito com Tina Turner (eles fizeram um dueto em It’s Only Love), então eu sugeri fazer algo semelhante. Eu escreveria canções para alguém como ela e, depois, trabalharíamos a música juntos. Mas isso mudou quando a gravadora surgiu com o nome de Desmond.”

O tal “nome sugerido pela gravadora” era o do hit maker Desmond Child, que já havia escrito alguns dos grandes sucessos de bandas como Kiss, Aerosmith, Alice Cooper, Cher… A dupla foi um pouco relutante no começo, mas entendeu o quanto essa experiência podia agregar a todo o processo. “Estamos crescendo como compositores, aprendendo as coisas”, disse Jon Bon Jovi na época. “O que há de errado em contar com a colaboração de pessoas como Desmond, que pode nos ajudar dando 10 por cento a mais em uma canção? Na verdade, ele está envolvido em apenas três faixas: Livin’ On A Prayer, You Give Love A Bad Name e Without Love e, em cada caso, ele não tentou mudar o que somos, apenas nos refinou um pouco, sugerindo alguns caminhos extras que poderíamos tomar.”

É preciso explicar quão importante foi a contribuição de Desmond, não apenas para o álbum, mas para toda a carreira do Bon Jovi?

Além desses dois grandes sucessos indispensáveis em qualquer show até hoje, o álbum também trouxe outros hits que são obrigatórios em qualquer coletânea do grupo que se preze, como Wanted Dead or Alive e a melosíssima Never Say Goodbye, além de outras que podem não ter tocado tanto quanto essas nas rádios, mas que não ficam atrás, como Raise Your Hands e a música que abre o álbum, Let it Rock.

O fato é que Slippery When Wet é o resultado de uma alquimia de recursos e fórmulas extremamente populares nos anos oitenta, uma década estranha e responsável (junto com os anos 60 e 70) por formar a base da música popular que o mundo continua produzindo e consumindo até hoje. O Bon Jovi pegou o que bandas lendárias como Kiss e Deff Leppard ensinaram e elevaram a brincadeira para outro nível, juntando letras que falam de sentimentos e situações que os jovens da época se identificam (e, de uma forma ou de outra, os de hoje também), melodias que são impossíveis de esquecer (não importa o quanto tentemos) e um intenso trabalho visual e de marketing, com videoclipes super-produzidos, mostrando uma banda toda trabalhada com tudo que a moda da “década perdida” dizia que era legal.

Slippery When Wet é um desses álbuns históricos do rock, que viraram referência de todo um estilo – no caso, o chamado “hard rock farofa”, que influenciou diversas bandas que vieram depois e foi trilha sonora de (aposto) todas as gerações a partir dos adolescentes oitentistas, que podiam nem gostar de Bon Jovi, mas já dançaram com seus primeiros amores ao som de Never Say Goodbye ou tocaram sua primeira “air guitar” ao som de You Give Love A Bad Name.

Essas músicas são tão populares que tocam até em festas de casamento e, ainda assim, tão marcantes que nenhuma festa será tão legal quanto aquela em que o próprio Jon Bon Jovi, agora de terno e gravata e cabelos brancos, está presente e é convidado a cantar Livin’ On A Prayer pela cantora da banda de casamento… E aceita!

Vai me dizer que, se você estivesse lá, não cantaria o refrão junto…

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