Vez em quando recebo, da Fábrica de Sucessos, em meu e-mail, uma lista das 50 músicas mais tocadas no Brasil na última semana. Nenhuma surpresa: basicamente temos sempre sertanejos, funkeiros, forrozeiros-arrocheiros (essa mistura que hoje une toda a música descartável brasileira) e vez em quando algo como o Jota Quest, que, apesar de ser uma boa banda, sempre está no mesmo balaio que os anteriores, seja em festivais, programas de TV ou mesmo DVDs. Enfim, é o mercado. A música em si não importa tanto. Muitos nomes eu jamais ouvi falar, e percebi a grande influência que a Som Livre (gravadora da Globo) exerce nesse cenário.

Estamos na era do mercado de nicho, mas o mainstream ainda existe e influencia. As suas principais maneiras de formar público ainda são as tradicionais: trilha de novela, participação em programas de TV e as rádios comerciais, que, quando não são de nicho sempre obedecem a cartilha que a TV dita, logo, natural que o sertanejo universitário, axé, arrocha, funk, e toda essa leva de músicas rasas e que fazem apologia à balada irresponsável sejam ainda o carro-chefe no que se considera “o gosto geral da população”.

Mas é isso mesmo? Nós, os brasileiros somos sertanejos de asfalto que só pensam no fim de semana para “beber, cair e levantar”? “Arrastar uma gata qualquer para o fundo da Fiorino”? (vale chamar a atenção para o quão velhas essas frases já se tornaram, dada a velocidade dos descartes) Nos tornamos tão medíocres assim? Ou sempre o fomos, e agora isso só está mais escancarado?

Diz-se por aí que o nível de educação do país aumentou. Realmente, em números temos muito mais gente cursando nível superior e fazendo até mesmo pós-graduações. E por que o nível da cultura (porque não é só na música que estamos nessa situação. Já parou pra ver a lista dos filmes brasileiros em cartaz? Basicamente só temos comédias idiotas da Globo e blockbusters gringos) está tão baixo? Como um país com muito mais acesso à educação que nos anos 70 e 80 deixou de ser exigente quanto ao conteúdo? Viramos mesmo uma massa de manobra assumida e que gosta de ser assim?

Não, eu não acredito que a boa música morreu. Sei muito bem que está nos nichos e que devemos buscá-la. Este é o novo modelo de mercado e muita gente fala sobre isso por aí. Mas onde estão os poetas que mesmo as gravadoras criavam? Aquela música de fazer pensar, que a própria Globo (representando aqui toda a mídia mainstream apenas como exemplo) criava? É tudo tão simples assim, a ponto de criar arranjos medíocres, letras estúpidas recheadas de machismo e pornografia e divulgar bastante que dá certo? 

A coisa mais selvagem e ancestral que temos é o sexo. Qualquer criatura sabe o que é isso, não é preciso um mínimo de civilidade. E isso, em pleno século XXI, auge da tecnologia e informação, é o que move o mundo. Basta oferecer sexo sob a forma de pessoas enclausuradas num reality show ou letras que remetem a isso e BUM! Temos o famoso hit! Essas listas de sucesso são o fiel retrato de uma sociedade, e o pior: da mentalidade de uma sociedade. Daí é perfeitamente compreensível quando ouço alguém dizer (cada vez mais frequentemente) que quer fugir do Brasil.

“Brasil, mostra tua cara!”, disse Cazuza. Mostrou e eu preferi que nunca houvesse mostrado.

Veja as listas completas semanais da Crowley AQUI.

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