Há poucos dias um vídeo foi divulgado na Internet revelando a “fórmula musical do momento”: o músico e produtor Patrick Metzger batizou os “woh woh” que encontramos em 11 a cada 10 músicas pop atuais de Millennial Whoop. De acordo com ele, trata-se de “uma sequência de notas que alterna entre a quinta e a terça de uma escala maior, tipicamente começando na quinta. Um cantor normalmente cita estas notas com um fonema de ‘Oh’, muitas vezes em um padrão ‘Wa-oh-wa-oh’. Isso está em tantas músicas pop que chega a ser criminoso.”

O vídeo está em inglês, mas você vai entender o que ele tenta mostrar em poucos sons.

A primeira coisa que a descoberta de Metzger me fez lembrar (e aposto que você também se lembrou disso) foi da apresentação do grupo Axis of Awesome no festival de comédia de Melbourne, em 2009, quando explicaram que, em 14 anos de estrada, eles não tinham um hit porque ainda não escreveram uma “canção de quatro acordes” – os mesmo quatro acordes usados em inúmeros sucessos pop das últimas décadas.

O fato é que a repetição de notas ou de acordes à exaustão é uma fórmula há muito utilizada pelos “hit makers” e a explicação não tem nada a ver com arte, mas puramente científica: o cérebro humano aprende e assimila coisas por repetição. É assim que, por exemplo, aprendemos matérias diversas na escola ou mesmo aprendemos música – estudando, lendo diversas vezes a mesma coisa até entrar na cabeça, decorando… É só ficar repetindo algo que, com o tempo, quando menos esperar, vai se lembrar daquilo. Fica muito mais fácil decorar algo quando você gosta daquilo que está lendo/ vendo/ ouvindo.

No caso dos sons, ouvir uma única nota seguidamente se torna monótono, por isso que não há nada mais garantido que você decorará alguma coisa “pelos ouvidos” que uma sequência binária, ou seja, dois únicos sons bem distintos entre si – como a terça e a quinta nota da escala cromática, por exemplo. Se você repete essa sequência de dois sons (ou três ou quatro) a cada período de tempo, chega uma hora que, quando a primeira nota dessa sequência for executada, seu cérebro já prevê o restante dela e fica ansioso para que ela se cumpra. Ao final da sequência, sua mente se extasia com a expectativa cumprida.

É claro que existem inúmeros outros recursos para “viciar seu ouvido”, fazendo com que você queira ouvir a mesma música durante uma semana seguida – este é apenas um dos mais usados na história da música pop desde seu início. Você pode usar, por exemplo, ritmos e batidas conhecidos (usados pelos produtores de hip hop, de música eletrônica ou, no Brasil, de funk), uma certa métrica de frases e palavras já usada em outras músicas, uma sequência de notas que já são comumente usadas juntas… Tudo para causar familiaridade ao cérebro de quem ouvir o seu trabalho inédito.

Para quem pensa que o uso de sons familiares em músicas pop é coisa recente, deixo apenas uma cena muito emblemática da série Vinyl, da HBO (já falamos dela aqui e aqui), estrelada pelo personagem Lester Grimes (vivido pelo ator Ato Essandoh). Nela, o produtor e ex-blueseiro mostra para a banda que empresaria, a Nasty Bits, como inúmeras canções icônicas, que formaram a base do blues e do rock como conhecemos, foram feitas apenas com a sequência “Mi, La, Si, Mi”

Será que aquela música que você não para de escutar é a sua favorita apenas porque é uma releitura de outras fórmulas já utilizadas? Pense nisso…

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