O filme israelense de 2008, “Valsa com Bashir” (Vals im Bashir, 2008) é uma dessas poucas obras que causam um misto tão grande de sentimentos que você sente dificuldade de expôr a sua opinião em apenas algumas linhas. Aqui, meu amigo, nada se define entre triste e alegre, cômico e dramático. É preciso esperar o que cada cena trará, para aí sim tentar definir a sensação.

Ari Folman, diretor e personagem principal, apresenta a história em tom de narrativa, num formato documentário/animação, onde conta a sua experiência como soldado na 1ª Guerra do Líbano. O veterano de guerra, atormentado pela amnésia, tenta, por meio de conversas com outros soldados que serviram na mesma época, preencher lacunas em sua memória de tudo o que viveu durante a guerra.

A lembrança do protagonista é falha, principalmente se tratando do “Massacre de Sabra e Chatila”, o genocídio de refugiados civis palestinos e libaneses pela milícia maronita.  Desse episódio ele se recorda apenas de uma imagem de si mesmo e outros companheiros saindo nus do mar em meio à destruição.

Os traços fortes de HQ presentes na obra de Folman, atípicos em animações convencionais, ajudam a criar proximidade e identificação por meio de um desenho leve, sensível, muitas vezes quase palpável. A fotografia, composta por paletas de cores escuras e densas, repletas de texturas carregadas de tons de laranja escuro, amarelo e cinza, concebe um panorama de medo, desespero e terror, próprio da guerra em si. A animação dá o tom de pesar e tragédia que talvez nem filmagens reais dessem.

A genialidade da trilha sonora fica por conta de caras como o compositor alemão Max Richter e seu violino, responsável pela música tema do filme, “The Haunted ocean”.

Algumas músicas presentes no filme são interpretadas na língua hebraica, como por exemplo “Beirut” tocada por Ze’ev Tene um artista israelense. Na realidade “Beirut” é uma versão para “I Bombed Korea” do grupo estadunidense, Cake. Outra música incrível, também interpretada em hebraico é “Good Morning Lebanon” da banda israelense Navadey Haukaf. É preciso treinar nossos ouvidos preguiçosos para escutar músicas em línguas diferentes do inglês. O mesmo vale para os filmes, não diria estrangeiros, mas não-americanos. O tempo, a língua, tudo pode parecer muito estranho a princípio, mas logo se acostuma. Abaixo a música “Good Morning Lebanon”.

Músicas como “This is not a love song” do P.I.L (Public Image Ltda) banda de Johnny Rotten, ex-vocalista do Sex Pistols soam como uma pancada no pâncreas e evidencia exatamente a inquietação social através do movimento punk e a confusão mental do personagem. “Enola Gay” do grupo Orchestral Manoeuvres in the Dark dá a mesma sensação durante o filme. Apesar das batidas alegres a música fala sobre a aeronave enola gay, o primeiro avião a lançar uma bomba atômica, tendo como destino a cidade de Hiroshima.

“Um soldado valsa entre tiros e morte, com passos delicados e desenvoltos, enquanto atira, sobrevive, mata e evita morrer. Tudo em Valsa tem um tom de bela melancolia. Aterroriza e ao mesmo tempo encanta”. (Willian Lopes de Sousa )

“Valsa com Bashir” foi o primeiro filme de animação a ser indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2009 e ganhou o Globo de Ouro no mesmo ano.O diretor em uma de suas entrevistas chama a atenção para o fato de não ter criado um filme sobre um herói de guerra, a intenção é que os jovens enxerguem que não há bravura nem beleza nas batalhas, não existem vencedores, apenas tragédia. 

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