Não faz parte da minha filosofia de vida, gastar uma grana em algo que sei que vou sofrer física e psicologicamente. Se tratando de um festival de música, sei que posso equilibrar isso com as atrações destacadas no line-up e claro, contar com os amigos pra que esse dia realmente seja diferente e divertido. Não precisa passar mal e ficar triste com o que vou escrever, porque é só minha opinião, sem “cabisbaixisse”. Vou começar!

Um dos motivos que pesaram na minha decisão, foi o fato de nunca ter vivenciado um festival. Sempre achei mais interessante assistir os shows no sofá, com uma cerveja e o cinzeiro do lado. Foi o que fiz sábado o dia todo, porém sabe como é, ver o Jack White, assim como o mestre Robert Plant na telinha, não é a mesma coisa que estar lá. Pois bem, muitos amigos estavam lá e começaram a mandar trechos em áudio e vídeo, me enchendo de comentários positivos a respeito do evento e me deixando com uma pulga atrás da orelha sobre a vibe disso tudo.

Depois de estar “convencido” de que o festival é realmente legal, resolvi comprar os ingressos exatamente às 21:00 do sábado, algumas horas antes do dia 29 raiar. Pensei com reverb plate: “É estado de espírito! O lance é deixar a chatice de lado e encarar os fatos. A diversão é você quem faz. Comprei o ingresso e agora não tem mais jeito.”

Chegamos cedo e de transporte público, o que é legal para economizar uma grana. Por outro lado, não se economiza as pernas. São quase dois quilômetros, bem sinalizados pela CET até chegar ao portão de entrada do Lolla. Pegamos uma fila modesta, foram 30 minutos de espera e exatamente as 11:00, abriram-se os portões conforme divulgado pela organização.

Eis que surge o imenso autódromo de Interlagos, um gigante completamente estruturado para receber o público. Lembro de ficar alguns segundos parado, olhando tudo aquilo sem pensar em nada. É interessante como naquele momento, com uma garoa fina na cabeça, sabendo que estaria destruído de tanto andar de um lado pro outro na hora de voltar, vieram leves lembranças de como foram esses anos assistindo festivais em casa.

Acho uma opção louvável também ficar no lar, mas tenho que admitir, é muito fácil ficar na segurança e no conforto do sofá. Nada pode piorar, o banheiro tá ali do lado, assim como o controle em suas mãos, a coca-cola ou a breja estão na geladeira e se encher o saco é só deitar e dormir ou sair com os amigos.

É uma decisão difícil sair de casa nos dias de hoje, quando se envolve gastar muito (sem hipocrisia, vai um cascalho alto nessa brincadeira), uma energia descomunal, lidar com pessoas (muitas pessoas) e sim, corre-se o risco de você não gostar de absolutamente nada e se arrepender profundamente depois.

Não estava preocupado só em analisar musicalmente o festival. Me preocupei também com a segurança e conforto, queria poder aproveitar tudo aquilo e confesso que tive uma experiência incrível. A estrutura do evento assim como a organização são bem razoáveis, não tive problema algum com filas em banheiros, bares e lanchonetes, nada ultrapassou a faixa dos 10 minutos. Fora que os atendentes e o staff não tinham cara de servidor público deprê.

Todos os shows que assisti foram pontuais. Sendo assim, dá tempo de acabar um show e ir para o próximo tranquilamente. Mas é claro, existem pontos negativos. Achei bem fraco o line-up deste ano, faltou algo mais forte que Calvin Harris. Fiz questão de assistir o show dele, para tentar entender qual o motivo de tanta empolgação com relação ao artista. Todo mundo começou a sair do show em que estava e se deslocar para o palco Onix.

Não ouço rádio, muito menos música eletrônica, porém, conhecia bastante coisa dele por osmose. Teve de tudo, fogo verde, pirotecnia, papel picado, serpentina, explosões e claro, a cada intervalo antes de acontecer algum  desses efeitos, ele tocava algo em torno de 1 minuto de música. Era o suficiente pra dar aquela famosa dobrada no tempo, e até fazer parecer que o mundo vai acabar enquanto o DJ gritava: “3,2,1 SAUUU PAAAOLÓ”. Isso se repetiu umas 200 vezes. Até a 5ª vez deu pra encarar, depois disso, esta prática se tornou insalubre não só pela repetição, mas por terem umas 20 pessoas por metro quadrado pulando com o sovaco na sua cara.

Outra coisa chata, afim de centralizar a forma de recebimento do dinheiro foi a criação dos “mangos”. É a moeda que predomina no festival. Semelhante ao valor do dólar, o mango equivale a R$ 2,50. Cada chopp de cerveja custavam 4 mangos, ou seja, R$ 10,00. Tudo era muito caro, não da pra passar o dia inteiro em um local como aquele gastando R$ 50,00, ainda mais se não estiver sozinho.

Assisti a cinco shows, poderia fazer um review de cada um deles, mas eu me estenderia muito. O melhor na minha opinião, foi o primeiro e o mais curto. O Far From Alaska arrebentou! De todas as bandas que vi, foi a única que estava sem o molde artístico pré-setado para show. Eles realmente estavam emocionados. Foi nítido sentir o feeling genuíno de estar num palco de um festival grande pela primeira vez. Foi emocionante ouvir Deadmen, Thievery, Dino vs Dino, Politiks, Another Round ao vivo. Fiquei na torcida para Rolling Dice, porém, foi uma pena o tempo desse show ter sido tão pequeno.

Todo quebrado, sinto que estou ficando velho para isso, ou talvez acostumado demais com o sofá. Mas o que sei, é que nada se compara à estar no local sentindo a pressão do bumbo no peito, e respirando com a energia certa, na hora certa.

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