Hoje 15/05, data em que este post foi escrito, o mundo todo acordou perplexo com a notícia da morte do rei do blues B.B King. Agora é hora de inúmeras homenagens, reportagens contando a história do velho B, coletâneas e playlists. Eu só vou contar um pouco da minha relação de fã mesmo, como mais uma homenagem a este homem tão admirável.

Não me lembro de quando o escutei pela primeira vez, mas logo de cara percebi que unia dois mundos: o da origem humilde, de quem trabalhou duramente no Mississippi rural, como boa parte das lendas do blues, e o mundo de glamour eternizado por pessoas como Frank Sinatra. B.B.King era ambos. E de forma totalmente autêntica. Aliás, é isso que caracteriza os grandes ícones: a autenticidade, unida ao carisma.

Existem algumas músicas que ficam eternizadas numa só versão, sendo muito difícil fazer releituras, como Stairway to Heaven, por exemplo. Ou se faz algo totalmente diferente com MUITA personalidade ou é melhor deixar pra lá, para não correr o risco de ser herege. Por esse motivo, nunca me atrevi a cantar The Thrill is Gone. O que fazer para não soar como uma imitação barata do rei? Este, aliás, é um tema que abordarei num futuro próximo.

Tive a sorte de estar cara a cara com o velho B, em 2010. Caí na estrada rumo a Brasília apenas para assistir ao seu show. Foi uma sensação quase sobrenatural: antes do show a banda, boa parte formada por músicos idosos, passava seu próprio som. Podíamos conversar com seus integrantes. Eram super atenciosos. Pena que meu inglês não é lá essas coisas.

Tudo pronto, eis que alguém traz uma inacreditável Gibson preta brilhando e coloca numa estante no centro do palco, tão próxima que daria para tocá-la, com um pulinho (o palco era baixinho, sem aquele esquema de segurança que estamos tão acostumados no Brasil). Sim, estive cara a cara com a Lucille e a emoção era tão grande que eu me senti anestesiado. Depois de um tempo, um sinal para que nos acomodássemos nas cadeiras e lá vinha ele, de cadeira de rodas até a entrada do palco, para depois ser auxiliado andando até sua cadeira, próximo à guitarra.

Como era possível um senhor de 85 anos ter uma voz tão potente? E notava-se que, não fosse seu peso, seria totalmente possível vê-lo andando para lá e para cá no palco, como qualquer jovem faria. Isso é uma demonstração real de alguém que trabalha com o que realmente ama. São músicas intercaladas por piadas, sorrisos e agradecimentos. Por isso achei muito estranho ouvir dizer que ano passado haviam pessoas vaiando esse mesmo homem por não conseguir cantar ou tocar direito. Sem comentários.

Todos os fãs de blues sabem que não podem contar com a presença de seus ídolos por muito tempo: Clapton, Buddy Guy, Jeff Beck e muitos outros também são idosos e dão aquela sensação de que devemos assistir ao menos um show, para garantir a despedida. Naquele mesmo ano cumpri minha missão também ao ver Chuck Berry nas mesmas condições.

Agora o velho B se foi e deixou milhões de órfãos. Sua Lucille se calou para sempre. Nunca mais veremos seus sorrisos, suas caretas e seu suor escorrendo pela testa. A mim o que restou foi essa lembrança e a satisfação de já ter visto o rei do blues pessoalmente. Também me restou um livro autografado, que ganhei de uma amiga, tempos atrás. Imagino como deverá ser, daqui para frente, a sensação de entrar no Bourbon Street, em São Paulo e dar de cara com aquele coreto de vidro com uma Lucille autografada funcionando agora como o próprio túmulo do mestre. Não há como não se emocionar.

A partir de hoje há mais uma estrela no céu, olhando e cuidando de todos nós, que amamos o blues. Como bem disse Raul, outro rei, “os homens passam, as músicas ficam”. Felizmente podemos ouvir sua a voz sempre que quisermos. A cada música escutada ou tocada, uma nova homenagem mais do que merecida. O que você vai ouvir agora?

Playlist no Spotify: Ride With The King (in memory and in honor of the life and music of B.B. King, 1925-2015)

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