Então morreu o cantor sertanejo Cristiano Araújo. Um trágico acidente de carro levou embora o artista de 29 anos e sua namorada de 19, causando uma grande comoção entre fãs do estilo, principalmente no interior do país. Enquanto isso, no calor do ineditismo da notícia, que revelava que o jovem atraia multidões aos seus shows, as vendas de seus CDs andavam muito bem e ele era abençoado por vários outros artistas do meio, tudo que eu via entre as pessoas que eu sigo nas redes sociais era: “mas quem é esse cara?”

Não vou negar: eu também não sabia quem era Cristiano Araújo – tudo que sei dele até agora é que ele era um jovem cantor de música sertaneja que morreu cedo de forma trágica, mas até aí, eu não ouço música sertaneja. O arrastar de multidão para seu enterro, porém, foi estranho para o jornalista Zeca Camargo, que apresentou sua crônica na GloboNews, bastante criticada por aí.

O fato de eu, você e Zeca Camargo acharmos estranho (ou não) que um artista do qual nunca ouvimos falar tenha assim tantos fãs se deve a uma característica muito marcante que a “Geração Internet” concedeu ao atual modo de consumir cultura em geral e música em especial: tudo gira cada vez mais em torno do nosso umbigo.

Antes da Internet, havia poucos veículos de comunicação: todo mundo lia os mesmos dois ou três jornais e revistas, assistia aos mesmos programas televisivos – inclusive os noticiosos, ouvia as mesmas estações de rádio… Esses veículos, por sua vez, traziam conteúdo “sortido”, de todo tipo: notícias sobre cultura, política, esporte, etc., enquanto que os programas de entretenimento apresentavam os mesmos artistas musicais, também de vários estilos, para todo mundo. Durante os anos 80, no mesmo programa do Chacrinha, podiam se apresentar uma banda de rock como os Titãs e, em seguida, a cantora romântica Rosana e, para fechar, a dupla sertaneja Chitãozinho e Xororó. Resultado: tanto você quanto seus pais e seus filhos sabiam da existência desses artistas, gostando de um deles ou não.

Na era do pontocom, tudo é verticalizado: com conteúdo on demand e endereços diversos dedicados a um assunto muito específico (um grupo de discussão que fala somente de MPB, um blog dedicado a idolatrar um astro de cinema, um podcast sobre muffins, sei lá), nós não precisamos mais ouvir/ ver/ ler aquilo que não gostamos e absorvemos apenas o que nos interessa. Se você só gosta de rock e não se interessa em nada por samba, por exemplo, você não vai perder tempo entrando em um site com as últimas notícias do carnaval, certo? Com isso, você procura interagir apenas com pessoas que tenham o mesmo gosto pessoal que o seu e seu campo de informação fica centrado apenas nele – seu umbigo.

Nos dias de hoje, isso já está além do ser bom ou ser ruim: é assim que é – e uma consequência desse comportamento para o mundo da música é você acabar desconhecendo totalmente o que acontece fora do seu gosto, separando as pessoas cada vez mais em “tribos musicais”. Enquanto você nunca ouviu falar de Cristiano Araújo, não me surpreenderia se um fã do cantor nem fizesse ideia do que é Matanza.

Música gera gosto musical, um gosto muito pessoal e característico, cada vez mais regionalizado pelo desejo de se isolar apenas naquilo que aprecia. Não estranhe, portanto, se um artista do qual você nunca ouviu falar, de repente, arrastar multidões com sua morte, pois não é ele que é pouco conhecido: nossos radares é que têm pouco alcance para uma infinidade cada vez maior de conteúdo que requer, ou não, nossa atenção. E não se julgue por isso: a vida é assim hoje em dia.

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