A banda californiana Creedence Clearwater Revival, é uma das minhas favoritas e uma das que mais me intrigam. Surgiram no final dos anos 60, pouco antes do festival Woodstock e duraram até pouco menos da metade da década seguinte. Suas músicas são incríveis e os caras conseguiram a proeza de simplesmente não gravar músicas ruins: todos os discos são audíveis da primeira à última faixa sem pulos. Um feito incrível que só poucos conseguem. Nem mesmo o Led Zeppelin ou o Pink Floyd foram capazes disso.

Temos aqui uma banda sem virtuoses. Ninguém faz qualquer firula e o mais extraordinário é mesmo a voz do John Fogerty, que sim, é fora do comum. O cara realmente transmite muita personalidade, tinha um drive muito característico e chegava a notas bem altas. Mas é só. Nem mesmo ele é um guitarrista incrível, nem parece fazer questão de parecer ser. O mesmo vale para seus (ex) companheiros Tom Fogerty (guitarra), Stu Cook (baixo) e Doug Clifford (bateria). Uma vez eu e minha banda resolvemos montar um show-tributo ao CCR e nos debruçamos sobre as músicas. A frase constante era: “mas esta música não tem nada!”

Sim, não tinha praticamente nada. Todas são extremamente simples, “retas”, com solos discretíssimos, que qualquer um poderia fazer. As letras chegavam a ser bobas e não era raro uma música simplesmente cair no fade logo que a mensagem foi passada. Simplicidade extrema, que foi adotada alguns anos depois pelo movimento punk. Algumas músicas eram claramente “desleixadas” e “feitas de qualquer jeito”, como se todas fossem gravadas em um só take, apenas para ter o registro. Afinal, o que faz dessa banda tão boa? Os caras parecem nem ligar para as próprias músicas… Parecem ter sido todas compostas em cinco ou dez minutos.

Isso se chama feeling, meu caro! É o famoso “menos é mais” em seu mais feliz exemplo. Ou ainda, é o famoso “rock sem frescura”. Os caras não eram exímios músicos, mas faziam e conheciam bem o feijão-com-arroz. Tocavam com propriedade e personalidade. Conheciam bem o estilo que se propuseram a tocar. Tinham mensagens realmente simples a passar. Passavam, e não viam por que encher linguiça. Acabou a letra? Acabou a música, mesmo com um acordezinho sem vergonha. Essa simplicidade é o que muitas bandas passam a vida inteira buscando e simplesmente não conseguem.

Está dada a resposta: o CCR é sim uma das melhores bandas de rock de todos os tempos porque tinham o mais puro e verdadeiro feeling. Experimente pegar qualquer música dos caras e tocar. Verá que é muito fácil. Muito mesmo (exceto se resolver cantar como o John). Mas ao ouvir o CD não parece: é uma bandona estradeira de responsa. É a mágica da música boa de verdade: fazer o simples com propriedade e transformá-lo em algo grandioso.

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