Esse post pode ser considerado um pequeno registro da história da música nacional, um agradecimento, aonde eu gostaria de contar um pouco da história de um lugar que me ensinou o que é um show de rock.

Localizado no centro de São Paulo, mais precisamente próximo a Estação Armênia na Rua Rodolfo Miranda, que não possui nada além de galpões ou hangares. É dai que vem o nome, pois ele é um Hangar no número 110 desta rua. Vale ressaltar que há um bar normalmente frequentado por motoristas e cobradores de ônibus, mas em dia de show é parada obrigatória para tomar uma cerveja.

Porque o Hangar se tornou tão importante?

O cenário musical underground no Brasil em 98 era sustentado à duras penas. Os locais que existiam com o propósito de promover este tipo de som, normalmente eram de difícil acesso e sem estrutura suficiente para que as apresentações fossem satisfatórias. A cena funcionava da seguinte maneira: os músicos existiam, e com muita vontade de tocar para e espalhar a música, mas não havia um lugar que agregasse qualidade, público, oportunidade e nem as  redes sociais que as espalhassem com apenas um clique.

Percebendo este déficit, uma figura dos primórdios do punk rock no país, Marco Badin, o Alemão, como é popularmente conhecido, ex-integrante do seminal e extinto grupo Anarcoólatras, investiu em um espaço completamente dedicado ao cenário alternativo e underground brasileiro. Não demorou muito para que os músicos abraçassem a causa e o Hangar 110 se transformasse em um lar para diversas bandas. Com o passar do tempo, se tornou um local de parada obrigatória para músicos que gostariam de entrar em evidência na cena hardcore que se formaria aos poucos com a entrada de um novo milênio, os anos 2000.

Com lotação para 640 pessoas em outubro de 1998 a casa é aberta, a princípio apresentando apenas atrações nacionais, não demorou muito para que passasse a ser local obrigatório para sediar também shows de importantes e históricas bandas do punk e hardcore mundial, tais como The Varukers, The Exploited e G.B.H. (UK), Agnostic Front (USA), Stiff Little Fingers (Irlanda), Força Macabra e Riistetyt (Finlândia), só para citar algumas.

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Apostando na força do hardcore e punk nacional, o Hangar 110 também valoriza os grupos de outros estados do Brasil. É enorme a quantidade com que surgem ótimas bandas nos quatro cantos do país, o que torna frequente a presença de muitas delas na casa. Isso só prova que as bandas estrangeiras são legais, mas aqui dentro do Brasil também tem muitas coisas boas que precisam ser valorizadas.

Se você quer experimentar um show igual aos que você assistiu em clipes e vídeos perdidos a vida inteira, vá até o Hangar. A sensação não dá para se traduzir em palavras. Assistir a um show do Garage Fuzz enquanto a galera andava na Mini Ramp (que foi retirada), ou de ver o local inteiro virar uma roda durante o show do Dead Fish.

Com 15 anos de existência existem depoimentos de alguns artistas que devem as suas carreiras ao Hangar:

Mi, vocalista do Glória

“Eu toco no Hangar há muito tempo, bem antes de o Glória surgir, pois fazia parte de uma outra banda, a Dance Of Days, então considero o Hangar minha segunda casa. Fez muita diferença na minha vida e em minha carreira musical, foi um marco importante no Brasil pelo espaço que concedeu ao punk e ao hardcore.  Ajudou muito o cenário underground porque era um lugar que podíamos contar pra tocar e por isso que muitas bandas que vocês veem na televisão ultimamente, já tocaram no Hangar, e conseguiram visibilidade”.

Nenê, vocalista do Dance Of Days

“O Marco, fundador do Hangar, foi muito inovador com a ideia de criar o espaço. Antes, nós tínhamos que nos submeter a tocar em casas que não estavam  abertas a rock e não davam valor à banda. Não era só de punk rock, mas de rock mesmo, para abrir espaço para todo mundo com uma boa estrutura e era algo novo para quem viveu nos anos 90.“

Gee, guitarrista do NXZero

“O NXZero teve a grande sorte de ter passado pela escola Hangar 110. Quando tinha show por lá era um dia diferenciado e por mais que o tempo tenha passado, a casa sempre vai ter grande importância no cenário musical. Tenho a palheta do primeiro show que fizemos no Hangar guardada, porque vai ficar na minha memória o quanto foi importante a gente ter tocado em um lugar como esse. E é por isso que fazemos ainda pelo menos um show por ano lá. ”

Vavo, guitarrista da Fresno

“O Hangar 110 é um ícone de música brasileira. Qualquer banda que está começando, que está dando os primeiros passos, tem como um dos objetivos principais tocar no Hangar 110. Com a Fresno, há 10 anos, foi assim. Com as bandas que vieram antes de nós, também era assim. E os grupos que surgem hoje também pensam assim. Só isso já diz muita coisa. A gente tem um histórico de dezenas de shows no Hangar 110, e posso dizer que 100% deles foram ótimos, com público fiel e casa lotada. Vale acrescentar o trabalho do Marcão, dono do Hangar, junto com o Piu, o Tom e todos outros que trabalham lá. Sempre trataram nós e todas as bandas com respeito. ”

Rancore – Quarto Escuro

Dead Fish – Tão Igual

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