O dia 18 de setembro foi marcado pelo que talvez tenha sido um dos shows mais polêmicos da edição de 2015 do Rock in Rio: em parte da comemoração dos 30 anos do festival, a organização chamou a nova encarnação do Queen para encerrar a primeira noite, que conta com dois de seus músicos originais – o guitarrista Brian May e o baterista Roger Taylor, e o cantor Adam Lambert no posto de frontman, em clara homenagem a Freddie Mercury, que nos deixou em 1991.

O show foi impecável. Um verdadeiro espetáculo digno da realeza da banda, que sempre esbanjou pompa, grandiosidade e excelência, sem deixar a diversão e a irreverência de lado. Apesar da enxurrada de elogios e boas surpresas que a apresentação parece ter causado no geral, não foi isso, no entanto, que muitos “fãs” do grupo enxergaram: durante a transmissão pelo canal Multishow, era fácil encontrar, nas redes sociais, de comentários irônicos a indignações profundas pelo fato de Adam estar à frente da banda no lugar de Freddie – os argumentos variavam de “Freddie é Deus, é insubstituível, logo, é uma ofensa colocar qualquer pessoa no lugar dele” a “esse cara é muito viado… Ai, que saudade do Freddie”.

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Vamos analisar o motivo deste comportamento tão radical?

Música é uma arte passional, que mexe com nossos sentimentos sem passar pelo racional. Some isso ao fato de que somos conduzidos pela “máquina da mídia” a idolatrar as estrelas que aparecem nas telas (cantores/ músicos de bandas, astros do cinema e da TV, esportistas, personalidades da Internet nos dias de hoje… Escolha seu ambiente), é até de se esperar que nos esforcemos para deixar tudo sempre do jeito que conhecemos. Black Sabbath? Só com o Ozzy – o resto é imitação; Van Halen sem Dave Lee Roth não é Van Halen; O único Deep Purple que existiu foi a formação com Blackmore, Gillan e Lord; Iron Maiden sem Bruce? Você bebeu?? (sem falar naqueles que dizem que o Iron de verdade morreu com o Killers, mas isso é outra história)…

Grande parte dos fãs, principalmente os fãs de música, mais especificamente os fãs de rock, são muito esforçados em manter “o sonho vivo” por conta deste amor quase incondicional àquela obra musical que ele conheceu e, normalmente, quer mantê-la assim, do mesmo jeito que a conheceu, não importa quantos anos passem. Por isso que bandas como Motorhead e AC/DC nunca tiveram o direito de mudar seu som (mesmo se quisessem), pois correm o risco de ter uma multidão de camisas pretas nas portas de suas casas com tochas na mão (veja o que aconteceu com o Metallica em sua fase Load, por exemplo – se a fase em si é boa ou não são outros quinhentos).

Agora que expus minha tese (espero), vamos aplica-la ao caso do Queen com Adam Lambert: nos corações dos fãs, a banda foi enterrada em 1991 com o grande Deus Mercury. Nunca mais teremos multidões emocionadas cantando Love of My Life em coro, “bateremos cabeça” ao som de Bohemian Rhapisody, bradaremos o refrão de We Will Rock You… Por que? Por que nos privar disso quando o Queen, na verdade, não era apenas um (maravilhoso) cantor, mas um (maravilhoso) quarteto de músicos que, dos três que ainda estão vivos, dois deles ainda estão mais que dispostos a continuar na estrada? Tudo que eles precisam é encontrar um canto à altura para cantar essas músicas com talento e carisma para cativar a plateia ao mesmo tempo! Uma tarefa dificílima, sim, mas não impossível! E eles encontraram a pessoa certa na figura de Adam Lambert – um EXCELENTE cantor que apresentou uma performance técnica e de palco incrível. Enquanto Freddie dominava a plateia ao vivo em seu tempo, Adam está pronto para os dias de hoje e domina a tela como ninguém mais no mundo do rock faz, com simpatia, carisma e cheio de “caras e bocas”. Uma nova rainha para um novo tempo.

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“Ah, mas ele não é o Freddie”, dizem as viúvas… Claro que não! Ainda bem! Ninguém é Freddie além de Freddie! Ninguém mais será. Qualquer comparação entre os dois é ignorante e infrutífera por vários motivos, mas um deles se destaca absurdamente – o que eu vou falar agora pode ser um choque para muitos, portanto, é melhor se sentar: Freddie está morto.

Mas o Queen não está. O show de 18 de setembro na cidade do rock mostrou isso. As mesmas velhas canções dos anos 70 e 80 ainda funcionam como nunca em espetáculos de arena, comandados por uma nova rainha que se senta ao trono fazendo questão de dizer que ele, na verdade, sempre pertencerá à eterna majestade que, verdade seja dita, foi uma de suas inspirações quando estava aprendendo seus primeiros falsetes. Um show equilibrado, cheio de hits, cantados tanto por Adam quanto por Brian, Roger e, sim, por Freddie, que deu o ar de sua graça em takes de antigas apresentações no telão. Os fãs podem dormir tranquilos, pois o fato de ter uma coroa na cabeça de Adam Lambert (mesmo que este não seja oficialmente membro da banda) não significa que o túmulo de São Mercury foi violado ou seu nome será esquecido – muito pelo contrário.

Viu como podemos ter o novo sem desrespeitar a memória do antigo? Que tal agora aprender essa lição de desapego com outras bandas?

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