Vinyl: o lado podre da música que todos já tinham ouvido falar

No dia 14 de fevereiro, estreou no canal à cabo HBO a série VINYL, criada por Mick Jagger (ele mesmo), Martin Scorsese (o próprio), Rich Cohen e Terence Winter. Ambientado na Nova Iorque dos anos 70, o programa, cuja primeira temporada terá 10 episódios, conta a história de Richie Finestra (vivido por Bobby Cannavale), o dono American Century Records, uma gravadora à beira da falência, prestes a ser vendida para a PolyGram. Em meio a uma epifania de cocaína, bebida (drogas comumente usadas pelo personagem de Cannavale) e do som do New York Dolls, Richie decide não abrir mais mão de sua empresa e reergue-la indo atrás de novos sons, bandas que sejam realmente impactantes, que embriaguem os sentimentos dos ouvintes com suas músicas – não aqueles artistas que já fazem parte de seu catálogo há tempos e não vendem mais nada.

Em diversas entrevistas e matérias sobre a atração, Jagger e Scorcese disseram que muitos dos acontecimentos apresentados na série são inspirados em suas memórias de como eram a indústria da música e a cidade de Nova Iorque naquela época – uma era musical e culturalmente riquíssima naquela região que ambos viveram intensamente. Não poderia haver período melhor para eles escolherem retratar na tela: estamos falando da década em que o cenário da música popular mundial (em especial o rock) simplesmente enlouqueceu de vez com o nascimento de tantos estilos, vertentes e movimentos diferentes: o surgimento do punk, da New Wave, da Disco Music, o movimento Black Is Beautiful e o início da cultura de DJs com suas mixagens ao vivo, a consagração definitiva das bandas inglesas que conquistaram o mundo nos anos 60, o “segundo assalto” da invasão britânica com a origem do Heavy Metal, o glam rock com seu espetáculo visual, a transformação gradual do rock psicodélico em rock progressivo… Ufa! Já fiquei tonto só de pensar a respeito da infinidade de coisas para se conhecer e ouvir nessa época. De quebra, cada episódio é recheado com flashbacks dos personagens mais jovens, no início de suas carreiras durante os anos 50 e 60 – e lá se vão mais excelentes referências musicais…trocaodisco-vinyl2
As referências históricas são um tempero saboroso para quem conhece um pouco dos “causos” do mundo do rock. É o caso, por exemplo, de o escritório da American Century localizar-se no famoso Brill Building, o icônico prédio localizado na 1619 Broadway da 49th Street. Desde os anos 50, se você é um empresário respeitado no mundo da música americana, seu escritório tinha que ser instalado lá. Com o tempo, o nome do prédio batizou também o estilo de se produzir e comercializar música – o “Brill Building sound”, como ficou conhecido. A partir deste endereço, a gravadora (cuja história se assemelha bastante com a A&M Records) vai se cruzar com diversos astros do rock como Led Zeppelin e seu esquentado empresário, Peter Grant, Alice Cooper, Velvet Underground, Bruce Springsteen e muitos outros.

Nem tudo, no entanto, são flores na vida da American Centuy e seu dono, Richie Finestra – pelo contrário. Vinyl faz questão de mostrar o lado escuro e podre da indústria do rock n’ roll daquela época, regado a sexo, drogas e jogadas de negócios onde os empresários declaram, sem pudor, que “músicos não são seus amigos: eles são um produto”. Muitos outros filmes, documentários e séries já abordaram esse lado negro, ´mas essa não é a novidade do programa. A missão auto-imposta de Richie em manter a gravadora e torna-la novamente relevante do jeito que ele imagina que as coisas tem que ser é a peça-chave para levar à tela um debate muito pertinente nos dias de hoje: a briga entre a música-arte e a música-produto. Como artistas podem viver financeiramente de sua arte sem serem explorados, até onde esses intermediários (gravadora, empresários, editores, distribuidores, etc.) são essenciais, a partir de quando a indústria “estraga” a arte em função do lucro – por outro lado, será que a arte sobreviveria sem essa indústria? Todos esses pontos são debatidos no pano de fundo da série, usando o rock n’ roll como campo de batalha.

Preste atenção em Vinyl não como apenas um produto televisivo, mas como uma espécie de documentário da indústria da música dos anos 70 travestido de ficção. Além de abrir sua mente para como muita coisa nesse louco e barulhento mercado funciona até hoje, você será agraciado por uma setlist de clássicos da época que não se encontra em todo lugar.

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