O antológico álbum 2112, do Rush, completa 40 anos de lançado. Em homenagem a essa data (abril de 1976, não o ano de 2112), a banda lançou uma “vídeo lyrics” em quadrinhos que ilustra a aventura intergaláctica.

Sem terem a menor ideia do tamanho da obra que estavam compondo, Geddy Lee (baixo e voz), Alex Lifeson (guitarra) e Neil Peart (bateria) “pariram” aquele que seria, ao lado do Moving Pictures, o álbum mais importante de suas carreiras e um dos que mais influenciaria gerações de músicos a seguir. “Eu não posso começar a dizer o quão incrivelmente inspirador foi ouvir pela primeira vez álbuns como 2112, Hemispheres, Permanent Waves e Moving Pictures”, disse o baterista Mike Portnoy, do Winery Dogs, um fã confesso do trio canadense.

Juntam-se a Mike nesse coro diversos grandes nomes do mundo do rock que surgiram a partir dos anos 80: membros do Dream Theater, Metallica, Primus, Smashing Pumpkins e Symphony X, entre muitas outras, já declararam seu amor pelo trio e disseram que, em algum momento de seu desenvolvimento musical, a obra espacial os impactou profundamente. Um dos mais famosos tietes do grupo, o guitarrista/ vocalista do Foo Fighters, Dave Ghrol, tocou 2112 com o baterista Taylor Hawkins e o produtor Nick Raskulinecz (todos “fantasiados” de Rush da década de 70) durante a cerimônia de indicação dos canadenses ao Rock n’ Roll Hall of Fame em 2012. “É assustador tocar sua música favorita na frente da sua banda favorita”, disse Dave. “Uma coisa é sentar no porão da sua casa e tocar 2112; outra é estar na frente do Rush, vestindo um kimono e uma peruca, e tentar usar o pedal wah-wah usando sapato plataforma. Foi incrível.”

História por trás da história

2112 foi um álbum totalmente diferente do que estava sendo feito naquela época”, diz Geddy Lee. “Diversos músicos formados já chegaram até mim diversas vezes e disseram ‘esse álbum me inspirou. Algo nele é tão diferente…’” Mas por que ele teve todo esse alcance?

Parte do mérito se dá àquele momento da história da banda: após o fracassado lançamento do terceiro álbum do Rush, Caress of Steel, que trazia sons experimentais (entre eles, a odisseia medieval de 20 minutos The Fountain of Lamneth), a gravadora insistia que eles compusessem algo mais comercial, radiofônico (Bad Company chegou a ser citado como referência para eles). “Lembro-me claramente dizer: ‘OK, dane-se. Vamos afundar em chamas, mas pelo menos sabemos que fizemos do nosso jeito’”, disse Alex Lifeson a respeito do dilema daquele momento.” De jeito nenhum nós vamos refazer o nosso primeiro álbum só porque é isso que a gravadora quer e eles estão preocupados com as vendas. Então, nós mergulhamos em 2112.”

Uma história musical de ficção científica de 20 minutos, inspirada em um livro da escritora Ayn Rand, ocupando todo o lado A do vinil? Depois de um Caress of Steel, a lógica das gravadoras diz que isso é suicídio mercadológico! Mas foi exatamente isso que eles entregaram, apesar da mentira contínua de seu empresário, Ray Danniels, para os executivos de que o trio estava atendendo às exigências. Quando os engravatados da Mercury ouviram o disco pela primeira vez, disseram “Ok, vamos à falência. Para tentar salvar o mínimo de investimento possível nessa bomba, vamos tentar promover o lado B, que traz músicas com durações mais convencionais” – e é por isso que A Passage to Bangkok foi o primeiro hit do álbum a ser trabalhado nas rádios.

Apesar de ser uma excelente música (como todo o disco), não adiantou: os fãs ficaram alucinados com aquela ópera-rock, contradizendo toda a lógica dos executivos. Todos “viajavam” nas melodias complexas, os riffs poderosos e a gana dos três em “tocar a história” de Anônimo e a sua luta contra os sacerdotes dos templos de Syrinx, aqueles que controlavam tudo que podia ou não ser lido, escutado ou feito em todos os planetas da Federação Solar. Quem não gostava da banda, passou a adorar – se não por causa da faixa-título, pelas músicas do lado B como a selvagem Something for Nothing, as belas Tears e The Twilight Zone ou a divertida Lessons. “A gravadora quis explorar o sucesso de 2112 pedindo que gravássemos um álbum ao vivo”, lembra Geddy sobre a época em que foi idealizado o disco All the World’s A Stage, trazendo um show da turnê de 2112, onde o grupo executava a música na íntegra. “É uma coisa normal no mercado. Nós nunca havíamos pensado em lançar um álbum ao vivo até aquele ponto.”

Com 2112, o Rush conquistou o direito de compor e gravar como bem quiser e, com isso, mudaram o cenário do rock.

Progressivo acessível

Contar uma história rica dentro de uma música complexa de cerca de 20 minutos não era novidade em 1976. Bandas de rock progressivo já haviam sido bem sucedidas com experiências desse tipo como Emerson, Lake & Palmer, que lançou Tarkus em 1971, o Yes com seu Close To The Edge, de 1972, o Thick As A Brick do Jethro Tull, também em 1972, entre outras. O que essas bandas tinham em comum? Elas eram acusadas de serem “complicadas demais”, uma verdadeira “masturbação de instrumentos” que, ao fim das contas, soa chato para os ouvintes de sons mais populares.

O que o Rush conseguiu fazer em 2112 foi amadurecer e oficializar uma característica única e incrível deles que seria perseguida por todos que se inspirariam na banda nos anos seguintes: Geddy, Alex e Neil tornaram a música complexa (e, por tabela, o rock progressivo) acessível.

Mesmo que a faixa-título deste álbum tenha diversos trechos e frases musicais distintos ao longo de seus 20 minutos praticamente sem refrãos pegajosos, ela é composta em cima de variações de duas ou três frases musicais que encontramos nas primeiras partes – frases essas que são marcantes, facilmente absorvíveis pelo ouvido e pela mente inconsciente do ouvinte, de forma que, sem perceber, ele as reconhecerá ao longo da música. Junte isso a uma história contada de forma simples, sem lirismos ou figuras de linguagem de pretensa literatura clássica rebuscada e você tem uma obra de fácil absorção. 2112 é praticamente um filme de aventura espacial, algo bem semelhante ao primeiro filme de uma certa saga de cavaleiros extintos contra um império galáctico que sairia em 1977…

O “Starman” que simboliza a luta do personagem “Anônimo” contra a Federação Solar acabou tornando-se um “logotipo” informal da própria banda.

“Foi definitivamente um ponto de virada. Esse foi o momento em que sentimos que tínhamos chegado a um som que soou como nosso”, define Alex Lifeson sobre a sua obra. “Eu acho que é uma das peças mais importantes do trabalho que fizemos. A influência que teve em um monte de ouvintes, apenas a julgar pelas declarações que li e até mesmo por comentários de outras bandas que foram influenciadas por nós… Isso é realmente um registro para todos eles. E isso é uma coisa maravilhosa.”

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