Recentemente foi lançado o álbum Blues You Can Use, mais um registro ao vivo do grande Stevie Ray Vaughan. O show, que aconteceu no Mann Music Center, na Filadélfia, em 1987, foi transmitido por rádio e, agora, todos nós podemos conferir a gravação original (com direito às vozes dos locutores no início da transmissão) do guitarrista começando a apresentação “com o diabo no corpo” em uma interpretação selvagem de Scuttle Buttin’, seguida de clássicos como Superstition, Love Struck Baby e Mary Had a Little Lamb entre outros. O homem estava particularmente inspirado naquela noite, fazendo valer a pena ter esse álbum em casa para ouvir sempre.

Este não é o primeiro e nem será o último registro póstumo do guitarrista que nos deixou em 27 de agosto de 1990.Muito provavelmente o “baú de Stevie” ainda está cheio de restos de estúdio, gravações de apresentações e outras curiosidades que podem fazer a alegria dos fãs no futuro – assim é também com outros grandes artistas que já nos deixaram, de Jimi Hendrix e Raul Seixas a David Bowie e Prince. Esses registros podem ser excelentes presentes para os admiradores de sua obra que contribuem significativamente para a discografia do artista como podem tornar-se caça-níqueis absolutamente dispensáveis, cuja falta de cuidado com sua concepção é tão grande que fica evidente que o título chegou às prateleiras apenas para encher os bolsos daqueles que detém os direitos daquela obra hoje em dia. Como diferenciar um do outro? Algumas dicas para você não sair enchendo seus ouvidos com qualquer porcaria só porque é mais um título daquele seu ídolo:

 

  1. Antes de mais nada, verifique o tipo de registro anunciado

Existem, pelo menos, três tipos de registros de um artista póstumo que podem ser lançados: a gravação de algum show (como foi o caso do exemplo de Ray Vaughan acima), um álbum póstumo com músicas inéditas ainda não lançadas do artista ou uma coletânea com diversas “gravações raras e outras curiosidades” – atenção: este é o tipo mais arriscado com o qual você deve tomar cuidado. Muitas vezes as ditas raridades não passam de takes interrompidos de tentativas de gravações de uma determinada faixa, que em nada acrescenta para a obra final do artista. Você identifica facilmente esse tipo de “raridade” ao verificar a tracklist do álbum e encontrar “nome da faixa (alternate take 1)”, “nome da faixa (alternate take 2)”, “nome da faixa (demo)”, “nome da faixa (previously unreleased)”, “nome da faixa (alternate take 245)”…

A tracklist do box “Johnny Be Goode: His Complete ’50s Chess Recordings”, de Chuck Berry, apresenta de três a cinco versões diferentes e mal gravadas da mesma música.

 

  1. Dê uma conferida na qualidade da gravação

Muitas vezes, se o artista, quando vivo, decidiu não lançar aquele registro, algum motivo tinha. Podia ser puro preciosismo da pessoa (e tem todo direito de ter, afinal, é sua obra) ou uma razão mais justificada como, por exemplo, um registro de péssima qualidade de áudio. Existem vários álbuns e coletâneas “com gravações originais da época” cujo conteúdo é praticamente inaudível, seja pelo excesso de ruído ou pelo processo desastroso de captação, que acaba pegando mais o som do público que da banda.

Por mais curiosa e histórica que possa ser, a gravação de Such a Night in Pearl Harbor, de Elvis Presley, é péssima – você quase não consegue ouvir o Rei e sua banda em meio aos gritos das fãs.

 

  1. Tente saber um pouco da história do álbum póstumo antes de ouvi-lo

Mais uma vez: se o artista decidiu por engavetar aquele registro, algum motivo tinha – mas pode simplesmente ter acontecido de o cara estar planejando lançar aquilo mais tarde quando a fatalidade aconteceu. É sempre interessante saber se aquele lançamento é um desejo póstumo sendo atendido ou, simplesmente, os detentores atuais dos seus direitos (normalmente a família) estão simplesmente abrindo o baú para “urubuzar” tudo que pode ser aproveitado até raspar o tacho. Mesmo que seja um típico caso do segundo cenário, se o lançamento for bem cuidado, ainda existe a pequena chance de sair um resultado legal.

O álbum People, Hell and Angels, de Jimi Hendrix, lançado em 2013, não é nenhuma pérola da discografia do guitarrista, mas a qualidade das gravações é excelente e o resultado geral é interessante, de forma que não incomoda.

 

Alguns álbuns póstumos que valem a pena conferir


Elvis Presley
Elvis At Stax
É isso mesmo: o Rei esteve na terra do soul e do swing. Seu objetivo, em 1973, nem era o de “apimentar” seu som com mais groove (o motivo real de gravar no histórico estúdio de Muscle Shoes era porque o local era perto de sua casa no Memphis), mas o resultado final foi fase muito criativa e original dessa fase de Elvis. Vale muito a pena curtir e dançar ao som dele de um jeito bem diferente.

 

Jimi Hendrix
First Rays Of The New Rising Sun
Assim que a família de Jimi Hendrix obteve de volta os direitos de sua obra, a primeira coisa que eles fizeram foi finalizar a produção do que seria o último álbum do guitarrista, no qual ele estava trabalhando, mas morreu antes de terminar. O disco também conta com gravações que haviam saído em coletâneas póstumas nos anos 70, todas devidamente escolhidas pelo engenheiro de som Eddie Kramer e pelo baterista Mitch Michel. Kramer supervisionou todo o processo de masterização para que a qualidade saísse impecável – e realmente saiu.

 

John Fogerty
Wrote A Song For Everyone
O cantor da extinta Creedence Clearwater Revival, John Fogerty, está vivo e muito bem, obrigado, mas somente em 2013 ele conseguiu de volta de seus ex-companheiros os direitos de suas composições da época. Com suas músicas em sua posse de novo, ele tratou de regravar os maiores sucessos de então acompanhado de vários convidados especiais – de Foo Fighters até Miranda Lambert, passando por Tom Morello, My Morning Jacket, Alan Jackson e Zac Brown entre outros.

 

Dio
Finding The Sacred Heart – Live In Philly 1986
Desde que Ronnie James Dio faleceu, não param de chegar às prateleiras inúmeros álbuns ao vivo com ele – seja em sua carreira solo ou em suas épocas de Black Sabbath e de Rainbow. Ainda bem que quase todos esses lançamentos são excelentes! Um dos mais recentes, que traz esse show de 1986 na Filadélfia, é exemplo de que estão cuidando muito bem do legado do cara.

 

Gary Moore
Essential Montreux
O guitarrista Gary Moore apresentou-se diversas vezes no famoso Montreux Jazz Festival, na Suíça. Cinco desses shows (dos anos de 1990, 1995, 1997, 1999 e 2001) foram lançados em um box com cinco CDs indispensáveis para qualquer fã – e se você não conhece a carreira desse cara, vai querer conhecer depois de ouvir essas cinco bolachadas.

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