Iniciando o retorno dos textos aqui no Troca o Disco venho falar de uma série de TV que me surpreendeu muito e considero uma indicação certeira para os musiqueiros de plantão.

Nos últimos meses a série Vinyl, produzida pela HBO tem sido bastante comentada pelos amantes de música, em especial do nosso querido rock n’ roll. Porém, ando bastante exigente para filmes e séries e apesar dela ter sido criada pelo Mick Jagger e Martin Scorsese, com produção da HBO (o que já nos da uma bela carteirada), achei que o rebuliço todo era apenas pela temática rockeira do programa, então acabei não me empolgando muito e adiei ao máximo minha maratona dos 10 episódios da 1ª temporada (única até o momento).

Mas ao assisti-la fiquei boquiaberto com tamanha qualidade. Ela conta a história de uma gravadora situada em New York no inicio dos anos 70, e mostra com maestria todo o cenário musical da época, o glamour e a desgraça de ser músico. Mas o que me encantou não foi a temática, que convenhamos, é jogo ganho, mas sim a direção e sua produção. Quem estiver interessado nos aspectos de história e referências, recomendo o excelente texto feito por Leonardo Paiva aqui no Troca o Disco, focarei na parte técnica.

A direção, capitaneada por Scorsese (cada episódio tem um diretor, porém, todos sob supervisão de Scorsese) é um show a parte. A série abusa de takes contemplativos, seja o New York Dolls no palco em câmera lenta, ou a produção de um disco de vinil acompanhada de perto pela câmera, dando uma sensação de grandiosidade para cada momento em questão. Mas o grande mérito da direção, que faz o espectador mais atento a termos técnicos ficar espantado são os planos sequencia (planos onde não acontecem nenhum corte ou mudança de câmera, sequencias longas de dialogo ou ação interruptas) compridos, onde o personagem começa a cena caminhando numa entrada do escritório, e termina na outra ponta, interagindo com vários outros personagens no caminho, isso quando a câmera não resolve mudar o personagem que está em foco e passar a acompanhar outro, tudo isso em um único take.

A fluidez que as coisas acontecem é sensacional, a produção impecável nos coloca de fato nos anos 70, os atores interagem com o cenário de forma muito natural e a direção faz tudo isso acontecer dinamicamente. Enquanto você acompanha um personagem, ao fundo você pode observar outros interagindo e “vivendo suas vidas” até o momento certo de entrarem no foco principal da cena, tudo isso sem nenhum corte, é como se estivesse assistindo um ballet de atuação e direção. Isso tudo acontecendo de maneira ágil e constante, corrobora para nos passar uma sensação de sufoco e sobrecarregamento em cima de Richie Finestra, o personagem principal.

Outro aspecto inovador e muito bacana são as “vinhetas de transição”, para demonstrar uma passagem de tempo ou uma mudança maior de cenário, a série nos brinda com algum ator encarnando um ícone do rock, algo totalmente à parte da trama, apenas um momento mais artístico onde algum artista é celebrado, como Otis Redding, Janis Joplin, Bo Diddley, Buddy Holly, entre tantos outros.

Para finalizar, acho fantástico que, apesar da gravadora e da principal banda serem fictícios, todo o cenário em volta é real, lugares que de fato existiram e artistas também. Você verá por exemplo, Alice Cooper interagindo com personagens da série, em situações obviamente fictícias, mas que pelo fator real (Alice Cooper) passam uma sensação quase documental. Se você conhece a história do rock, assistirá a série empolgado pensando “será que tal acontecimento aparecerá na série? E como eles vão fazer a ficção influenciar nisso?”, e quando fazem, fica genial.

Ou seja, fãs de música e rock, assistam, é um prato cheio de referencias e cenas que contemplam a música. Fãs de cinema, assistam, vocês ficarão de queixo caído com a qualidade.

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