O Lollapalooza, a caminho de se consolidar como o maior festival de música a visitar o Brasil, estreando sua versão de três dias, ocorrido em 23, 24 e 25 últimos, no Autódromo de Interlagos, em São Paulo, é, sem dúvida, um mini universo de acontecimentos. Musicais, obviamente, mas também diversos acontecimentos e pontos de reflexão culturais e sociais.

A relação de um festival mainstream com a cidade é algo muito maior que podemos imaginar estando em nossos lares. A começar pelo local escolhido, o Autódromo de Interlagos, alvo de projeto de privatização pela atual gestão da Prefeitura de São Paulo. Digo isso, pois, nas duas primeiras edições do evento em São Paulo, o local escolhido foi o Jockey Club, também na zona sul da cidade, mas que logo foi descartado pelo menor espaço físico e outros problemas. Assim, vemos que a decisão da gestão anterior que possibilitou o festival no Autódromo foi mais que acertada, eis que possibilitou que o Lollapalooza saltasse de 160 mil pessoas em dois dias para quase 110 mil pessoas por dia de evento, como na edição de 2018.

Dentro do Autódromo, que recebe alterações na disposição dos palcos e equipamentos a cada ano, o que fica claro é a excelente infraestrutura, seja do som em todos os palcos (apesar de problemas graves no palco Onix, que abreviaram o show de Liniker e os Caramelows, no sábado, e prejudicou o show da aguardadíssima banda Imagine Dragons), seja do acesso aos banheiros, bares e locais de venda de comida, que raramente apresentaram filas grandes que inviabilizassem o público de consumir e se divertir.

O ambiente externo do Autódromo, apesar de localizado no extremo da zona sul da Capital paulista, apresentou certa tranquilidade, mesmo com o mar de pessoas que se deslocava da única estação de trem nas proximidades do evento, cerca de 10 minutos a pé. A sensação era de que o maior problema, principalmente após o término da programação diária, foi o trânsito de carros, muito mais pela enorme quantidade de pessoas que preferiram ir em seus próprios veículos, táxi ou aplicativos de mobilidade.

A impressão é de que se houvesse maior preferência pelo transporte público, para ao menos ocorrer uma dispersão às outras zonas da cidade, a questão do trânsito de veículos seria também minimizada. Porém, é claro que essa preferência pelo transporte público não se daria partindo dos próprios presentes, e sim com incentivo do Poder Público, pois a simples medida de se estender o horário de funcionamento das estações de metrô da Capital já poderia ajudar a desafogar de forma mais célere a região, que recebeu até 110 mil pessoas por dia no festival.

Mas a realidade foi de reclamações de pessoas que mesmo saindo da região pela estação de trem mais próxima, em seguida, se depararam com a operação do metrô já encerrada. O que impediu algúem de curtir o dia de festival até o final e voltar com tranquilidade de transporte público. 

Para registro, é importante salientar que até para quem trabalha com táxi, uber e outros aplicativos, o evento em si não significou uma ótima chance de aumentar o faturamento, pois o caos viário inviabilizou o trabalho eficiente dos transportes alternativos de se locomoverem entre as corridas.

Sobre o público presente, entre a imensa maioria de jovens, via-se também a presença de pessoas na faixa dos 50, muito provavelmente porque viveram o auge da carreira das bandas headliners nos dois primeiros dias de festival, Red Hot Chilli Peppers e Pearl Jam. Porém, de forma quase que unânime, o público presente era pertencente à classe-média, pois o Lollapalooza trata-se de um festival em que o acesso para cada dia custa na faixa de R$ 500,00, na versão de 2018.

Ou seja, o reflexo dos valores para se estar no festival, e também para se consumir dentro dele (cerveja a R$ 13,00 – 365 ml – e comidas variando entre R$ 12,00 a embalagem de pipoca, a R$ 40,00 em hamburgers, massas e outras opções “gourmetizadas”) é algo que ao olhar crítico revela uma contradição enorme.

Enquanto o país vive tempos conturbados na política, como também vive intensamente questões mundiais que hoje em dia necessariamente estão em alta, como a representatividade de gênero e racial, o que se nota é que estas questões, presentes no festival unicamente pelo próprio engajamento dos artistas, é vivida pelo público como se fosse um produto que se compra no pacote. Ressalto este ponto, porque se não fosse pelos artistas levantando essas questões, viveríamos três dias distanciados de qualquer problema social que nos afeta no dia-a-dia.

Os expoentes da música negra brasileira, Rincon Sapiência e Liniker, que se apresentaram na sexta e sábado, respectivamente, como os outros artistas nacionais que fizeram questão de falar sobre a morte da vereadora carioca, Marielle Franco, parecem terem feito seus discursos sobre temas que não estão presentes no cotidiano da maior parte do público, pois a presença de negros e de pessoas de classes sociais mais baixas era quase imperceptível.

Apesar dos gritos e palmas dos presentes nos momentos que apareceram nos telões imagens da vereadora executada no Rio de Janeiro, e também quando Eddie Vedder, líder do Pearl Jam falou sobre violência, apoio às mulheres e desmatamento, é fácil constatar que infelizmente, os que lá estavam aplaudindo os discursos cheios de verdades tristes, são os mesmos que não se mostram como bravos lutadores fora do universo Lollapalooza.

Como também Hélio Flanders, vocalista da banda Vanguart, proveniente do estado do Mato Grosso, disse para os presentes em bonitas palavras, “…Montem suas bandas, escrevam seus roteiros, mostrem sua arte…”. Sabendo que os inúmeros jovens visionários presentes no festival esbarram por vezes na dificuldade existente para se iniciar e divulgar qualquer trabalho artístico, e também denunciando a barreira econômica quase que intransponível para comparecer ao festival e consumir a arte e cultura lá apresentadas.

Portanto, e sem que a conclusão se torne generalizadora, o que observei é que os mesmos presentes, pertencentes em sua maioria à classe média paulista, são os mesmos que convivem em universos completamente distintos dos temas relevantes ali expostos, pois, distanciados pelos R$ 1.500,00 gastos para acessar aos três dias de festival, não presenciam diariamente a violência e a contradição social que aflige o país atualmente.

Para mim, é de fato constrangedor o alcance que possui um artista da qualidade de Eddie Vedder, a voz ativa e afiada de Rincon Sapiência, a representação de uma mulher transsexual negra e acompanhada de ótima música vinda de Liniker e os Caramelows, ou até mesmo outros exemplos, como Chance The Rapper, ex-viciado em drogas assim como Anthony Kiedis, vocalista do Red Hot Chilli Peppers, ou como o importante discurso sobre a depressão, feito pelo vocalista da banda Imagine Dragons, Dan Reynolds, serem impiedosamente tragados pelo simples e lucrativo entretenimento, uma vez que após os três dias mágicos em São Paulo, muitos dos presentes sequer irão considerar tais discursos como de importância ímpar a serem levados à frente.

Em outras palavras, é lindo ver o evento realizado com sucesso, milhares de pessoas se unindo em convívio harmônico por três dias, mas será mais emocionante ver as importantes bandeiras levantadas pelos artistas erguidas também por cada um dos presentes, e que o enfrentamento dos estigmas seja levado ao ponto onde a cultura seja tão presente em nossa sociedade quanto as contradições que se revelam nas entrelinhas de um festival como o Lollapalooza.

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